EB – Projeto MK-ULTRA & Neurohacking

11 07 2011

Texto publicado originalmente em 27/05/2009 na coluna Ensaios de Borda do Fringe Lab, dentro do contexto da coluna de mashup de ficção, história, realidade e conjecturas especulatórias:

Desde o primeiro capítulo de Fringe, temos ouvido que o Dr.Bishop teve financiamento do DARPA para realizar as mais estranhas pesquisas entre as décadas de 60 e 90, tendo atendido os militares das mais diversas formas, em muitos casos realizando pesquisas utilizando mescalina, LSD (a preferida do Dr.Bishop e parece que também muito apreciada por Dr.Bell) além de outras drogas experimentais (cortexiphan) utilizando cobaias humanas (sem seu consentimento) e seus objetivos estavam relacionadas a controle mental, seja para transferência de memórias e amplificação de ESP (Percepção Extra-Sensorial) em crianças entre outas modalidades de experiências químicas e físicas, tendo outrora utilizado DNI (Direct Neural Interfaces) e tanque de isolação sensorial. Porém o mais curioso é que neste parágrafo os principais elementos de ficção são: Fringe, Dr.Bishop e o Dr.Bell.

Em 1975, no meio das investigações sobre os crimes da CIA relacionados ao Caso Watergate, descobriu-se que desde o final da década de 40 e mais intensivamente a partir de 1953 a CIA (e o Pentágono) haviam submetido cidadãos dos EUA e de outros países a “experiências” com o objetivo declarado de aprender o “segredo do controle da mente” humana. Sem que soubessem, milhares de pessoas foram expostas à radiação, drogadas seja com LSDmetilenodioximetanfetaminamescalina ou com as mais diversas misturas de drogas muitas vezes mais letais, ou torturadas em testes “comportamentais”, seja na tentativa de se descobrir um soro da verdade, métodos de transferência de memória ou submetidas a uma reprogramação mental para criar robôs-humanos com o objetivo de assassinato. Muitos foram levados à loucura e, pelo que se pode inferir com certeza, muitos à morte. Soube-se então que a CIA havia espalhado o LSD pelos EUA e outros países – antes de 1953 só havia no mundo um pequeno estoque, no laboratório suíço Sandoz, descobriu-se então “Operação MK-ULTRA – Projeto Monarca”. Project Monarch não te lembra de nada? Então assista ao episódio 1×09 de Fringe:  “The Dreamscape”.

Mais estranho ainda são as origens deste projeto, inspirado em relatos sobre as evoluções das pesquisas sobre ligação e controle mental com milhares de gêmeos conduzidos por um notório cientista nazista, antes do colapso do Terceiro ReichAllen Dulles que na época era da OSS (Escritório de Serviços Estratégicos) iniciou um programa chamado “Operação Paperclip” que tinha o objetivo de levar alguns cientistas nazistas para os Estados Unidos e incorpará-los em ambientes científicos, a lista dos cientistas foi providenciada por Wemer Osenberg, ex-comandante da seção científica da Gestapo, e as pesquisas que inspiraram esta ação foram conduzidas pelo Dr.Joseph Mengele, também conhecido por Todesengel, “O Anjo da Morte”. Porém a lista de cientistas foi se ampliando e os mais diversos cientistas foram trazidos para os EUA neste processo, dentre eles a base de pesquisadores científicos de ética duvidosa e experiência na utilização de cobaias humanas que com o passar dos anos influciou vários cientistas americanos também nos mais diversos projetos.

Em 1947, a marinha iniciou o “Projeto Chatter” com o objetivo de criar um soro da verdade, pois seus espiões descobriram que a URSS havia tal poção milagrosa, sua equipe continha pesquisadores da Operação Paperclip.

Em 1949, a OSS já havia se transformado na CIA e ela informada por seus espiões que a URSS havia técnicas infalíveis de investigação, para conseguir desenvolver técnicas similares eles criaram o “Projeto BLUEBIRD“, em sua equipe havia pesquisadores da Operação Paperclip e do Projeto Chatter.

Em 1952, uma das divisões da CIA, a TSD (Equipe de Serviços Técnicos) que incluia ex-pesquisadores do Projeto Chatter e da Operação Paperclib, criou o projeto MK-NAOMI(MK de Mind Kontrol onde o “K” era uma referência a veia alemã do programa) com o objetivo de criar armas químicas e biológicas para o controle da mente e para matar rapidamente e sem vestígios. E assim foram surgindo vários grupos originários de Paperclip e de seus discípulos, entre eles o MK-DELTA, Projeto CASTIGATE.

Em 1953, todos estes grupos não haviam gerado grandes resultados, portanto diante dos rumores que a URSS estava muito mais avançada que os EUA, segundo relato de espiões e das afirmações do doutor Nikolai E. Khokhlov, que desligou-se da KGB em 1954, que dizia que os soviéticos estavam desenvolvendo armamentos “psicotrônicos”, a CIA montou uma grande força tarefa, reunindo vários dos cientistas que já haviam ganhado experiência em todos estes projetos fracassados, com verbas mais generosas e com maior abertura para testes em cobaias humanas, para participarem da operação MK-ULTRA que tinha o objetivo de finalmente obter algumas respostas não encontradas anterioremente e obter recursos similares aos do soviéticos. Seja nos seus grandes laboratórios ou nos vários laboratórios que eles estavam financiando nos mais diversos lugares, de clínicas a universidades.

Uma curiosidade, é que alguns pesquisadores que participaram de um sub-projeto da operação MK-ULTRA para ampliação de ESP (Percepção Extra-Sensorial) em crianças e adultos com drogas experimentais, trabalharam no Rhine Research Center, um famoso centro de pesquisas paranormais que fica na Universidade de Duke, com campus em Durham e Jacksonville.

E se analisarmos com cuidado, não há como negar que os roteiristas de Fringe beberam nesta fonte, pois há vários detalhes do seriado que se assemelha com fatos ocorridos no decorrer da história da operação MK-ULTRA.

A operação MK-ULTRA agrupou 150 subprojetos de pequisa conduzidos durante mais de 20 anos, onde cobaias humanas foram usadas durante todo seu desenvolvimento e cuja matéria prima fundamental foram mulheres e criançaspequenas, inclusive recém-nascidos, também comunistas na guerra da Coréia, na guerra do Vietnã e alguns espiões chineses e soviéticos capturados durante a guerra-fria. Muitos pacientes das clínicas que conduziram secretamente estes experimentos, desenvolveram doenças mentais severas e até cometeram assassinatos e suicídio após os experimentos.

Um dos sub-projetos do MK-ULTRA, por exemplo, era o de criar assassinos insuspeitos, isto é, assassinos involuntários, inconscientes, robôs, para que não pudessem ser ligados à CIA e que pudessem ser ativados a qualquer momento. Outro projeto tentava identificarcrianças envolvidas em eventos de Poltergeist para tentar entender e controlar seus poderes paranormais. Em 1964 parte dos projetos críticos da operação MK-ULTRA foi para um projeto chamado MK-SEARCH, dentre eles os relacionados a transferência e recuperação de memórias, telepatia, transplante de cérebro, radio ghost networks entre outros estudos.

A maioria dos relatórios e registros relacionados ao MK-ULTRA nos EUA foram destruídos em 1973, porém alguns relatórios canadenses, cópias não-autorizadas de partes dos registros além da declarão de algumas testemunhas possibiliou que investigadores levantassem parte da verdade. Estas operações, deixaram várias pessoas aleijadas, incapacitadas e matou várias outras durante seus experimentos, levando o governo americano a investir bilhões de dóláres em indenizações. O processo judicial específico sobre o MK-ULTRA aberto contra a CIA pelo congresso norte-americano foi encerrado por “segurança nacional”.

O projeto MK-ULTRA e seus braços MK-DELTA e MK-SEARCH são considerados parte de um passado sombrio da CIA e dos EUA. Já na década de 70 alguns de seus pesquisadores identificaram que as linhas de pesquisas destes estavam totalmente equivocados e oficialmente o DARPA, CIA e Pentágono não investe em pesquisas que utilizam cobaias humanas sem autorização desde 1977. Porém há evidências que em 1983 um projeto nas linhas de um sub-projeto do MK-ULTRA ainda estava na ativa e sendo financiado pela CIA, assim como há relatos que o projeto SCANATE (de visão remota) que durou até meados de 1995 teve cooperação de um extinto braço do MK-ULTRA, buscando estimular com drogas experimentais agentes de eficiência exporádica e participação do SRI que esteve envolvido em alguns sub-projetos de várias destas iniciativas com ESP, a diferença é que nestes casos os participantes estavam cientes do tratamento ou experiências que eles estavam sendo submetidos e não estavam sendo enganados, pensando estar passando por uma terapia para curar suas enxaquecas, insônia ou depressão pós-parto.

Uma das cobaias deste programa, Cathy O’Brien, escreveu um livro chamado “Trance: Formation of America”, que  dentro de alguns devaneios expõe fatos relacionados aos experimentos que numerosos jovens foram submetidos, sendo convertidos em instrumentos de laboratório, cuja última meta era o controle psicológico de uma nação, porém ele não é um boa fonte para entender exatamene os resultados destes projetos. Outra vítima, Ken Kesey, também escreveu sobre suas experiências no livro “One Flew Over the Cuckoo’s Nest” que foi adaptado para o cinema, mas que também não revela quase nada sobre a operação. Os livros com conteúdo um pouco mais esclarecedores são o MKULTRA: The CIA’s Top Secret Program in Human Experimentation and Behavior Modification de George Andrews, The Search for the “Manchurian Candidate”, The CIA and Mind Control: The Secret History of the Behavioral Sciences de John D. Marks, The CIA Doctors: Human Rights Violations by American Psychiatrists por Colin A. Ross e recente The Project Mkultra Compendium: The CIA’s Program Of Research In Behavioral Modification de Stephtn Foster.

A cena acima é do filme independente Signals de Carlos Etzio Roman, que é baseado neste (longo) episódio da história americana.

O domínio da mente ainda é um assunto de interesse do Pentágono, e o DARPA é um dos principais investidores da neurociência nos EUA, que é uma área muito nobre e promissora que nada tem a ver com este passado negro da CIA. Via o seu progama HAND (Human-Assisted Neural Devices) o DARPA tem financiado a pesquisa e desenvolvimento de BCI (brain-computer interface) e DNI (direct neural interface) equipamentos que ainda irão revolucionar a indústria de próteses médicas, que literalmente abrirá muitas portas para a correção de diversos problemas físicos e mutilações acidentais. Nesta mesma linha, eles também financiam projetos de DNI para telepatia sintética, chips que irão simular o hipocampo funcionando com uma espécie de amplificador neural para quem sofre de alguma doença degenerativa cerebral como o Mal de Alzheimer, um DNI para controle de exoesqueletos para uso militar entre diversas outras pesquisas.

Curiosamente em Fringe vemos um pouco dos dois lados da moeda.


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