Luminescência, meu tio José e Avatar

25 01 2010

Final de ano, num rancho a beira-rio, curtindo o feriadão com a família, meus primos tiveram a idéia de fazer uma festa (que para minha surpresa havia sido preparada com boa antecedência) com direito a vários badulaques e inclusive com lightsticks (à volonté como diria os franceses ou à la vonté como nós abrasileiramos e gostamos de dizer) que sempre dá um tom alegre a festas noturnas e sempre leva a criançada (e inclusive vários marmanjos) a brincar diante das lâmpadas ultra-violetas, devido aos agradáveis efeitos visuais que tal combinação produz, sendo sempre um bom elemento para complementar a diversão.

Após a festa e em momento oportuno, meu sábio tio José, que tem uma curiosidade que eu muito aprecio,  me fez a seguinte pergunta:

– O que faz estas pulseiras brilharem? Elas são realmente de neon?

Estes são um daqueles momentos que você sente imenso prazer, afinal perguntaram algo do que eu sabia responder e pelo qual naquele momento eu estava pensando por razões que vocês irão descobrir abaixo.  Sem contar que com certas pessoas é sempre prazeiroso compartilhar um pouco de erudição  ou como alguns preferem chamar, um pouco de cultura inútil para desopilar o fígado; apesar que se tratando de cultura eu nunca a acho inútil, mesmo que seja para filosofar sobre o  bater de asas das borboletas  do ponto de vista entomológico, neural, da física tratando da teoria do caos, da perspectiva cinematográfica comentando sobre criativo filme “efeito borboleta” ou poético lembrando por exemplo da famosa pretensão de Mhuammad Ali de “float like a butterfly, sting like a bee“. Mas dependendo do contexto isto pode ser um porre para quem está participando e ninguém gosta de ser desagradável, mas este não era o caso.

O neon é um gás nobre incolor, abundante no universo, mas presente em pequena quantidade no ar atmosférico, ele foi descoberto pelos químicos britânicos Morris Travers (que eu sempre confundo com Tavares) e William Ramsay no século 19, os mesmos que descobriram o gás xenônio e o criptônio;  que apesar do nome krypton nada tem a ver com a saga de Kal-EL.

Segundo gás nobre mais leve, com um alto poder de refrigeração, 40 vezes maior que do hélio líquido e três vezes maior que o hidrogênio líquido, ele não está presente no light-stick!!!

A tradução de ligh-stick é “bastão luminoso”, mas sei lá por que cargas d’água (talvez pela mesma razão que vulgarizaram a expressão francesa à volonté para à la vonté) o mercado abrasileirou  o nome para bastão de neon ou pulseira de neon,  devido a sutil semelhança com as lâmpadas de neon, porém não é o gás nobre o responsável pela fonte de energia luminosa deste artefato, mas sim uma reação que ocorre com o cyalume (que está no bastão) similar e mais barato que ao luminol. No caso do luminol, ele reage com cobre e ferro, e como há ferro na hemoglobina, o luminol é vastamente empregado por equipes de investigação forense (como de CSI) para investigações criminais.

O que presenciamos no ligh-tstick (e nas cenas de CSI quando eles encontram sangue em algum local ou objeto) é o efeito conhecido como luminescência (nome com origem no latim “lumem”) que é a emissão de luz através por estímulo de radiação ionizante, luz ou reação  onde uma energia química  é transformada em energia luminosa. Na realidade quando o efeito é obtido através de algum composto químico sintético, como no caso do light-stick, ele é chamado de quimiluminescência e, apesar de não ser o caso, se fosse produzido por um organismo vivo ele seria chamado de bioluminescência sendo-se que há vários outros tipos de luminescência.

Voltando ao bastão.

No caso deste, normalmente há um solução de cyalume com uma ampola de vidro contendo uma solução de peróxido de hidrogênio (água oxigenada  35%) e quando o bastão é dobrado a ampola é quebrada, as soluções são misturadas o luminol começa a ser oxigenado e a quimiluminescência começa a ocorrer e fazer a alegria da galera. A duração do efeito depende da  temperatura do local, sendo-se que temperaturas baixas são mais propícias  para sua durabilidade, portanto colocar a pulseira na geladeira tende a prologar o efeito mas ele não se eternizará ou fará a efeito ocorrer novamente.

Vale lembrar que apesar de ser um efeito estudado a centenas de anos, com grandes evoluções no último século, este é um fenômeno não totalmente compreendido plenamente ainda sendo alvo de estudos e pesquisas.

No caso da bioluminescência, normalmente o substrato de uma proteína denominada luciferina (nome com origem no latim “lucifer” que significa “que ilumina”) é oxidada por uma enzima, denominada luciferase. Nesta reação há o consumo de uma molécula de trifosfato de adenosina (ATP) que excita energéticamente a luciferina e proporciona a geração de energia luminosa através da liberação da energia química.

A luminescência tem atraído o interesse do homem desde o princípio de sua existência, visto que do Pernambuco à China, os primeiros registros e pirilampos, fenômeno que Aristóteles (384 – 322 A.C)  descreveu como “luz fria”. Em 1669, o médico H. Brandt criou a “phosphorus mirabilis”, que era uma reação que utiliza uma propriedade do fósforo quando exposto ao oxigênio do ar em certas circunstâncias e por esta reação ele obtia a “quimiluminescência” (termo que fui criado 200 anos depois),  mas  Brandt que era um alquimista na época não compreendia exatamente o que ele estava fazendo, apenas o que ele estava conseguindo; o fascínio das pessoas para quem ele apresentava seu experimento alquimista.

Talvez seja este fascínio (o a intenção de fascinar) que fez James Cameron

inserir na história de Avatar,  a luminescência e a bioluminescência em Pandora como uma propriedade de todo organismo deste planeta, dos animais aos pequenes Woodsprites, as sementes de Utraya “Mokri”, e a Árvore das Almas, com propriedades místicas.

Quando meu tio Zé perguntou-me sobre o bastão de luz, a pouco eu estava lembrando da carinha de alegria de minhas sobrinhas ao brincar com os bastões de luz, sobre o fascínio da luminescência na humanidade e sobre o belo efeito que James Cameron conseguiu com Avatar, portanto nem preciso dizer o quanto achei oportuno a pergunta dele; porém confesso que na hora puxei um pouco o freio de mão e não externei toda minha viagem.

E por falar em viagem e para finalizar, vejam só o que este maluco fez com um bocado destes bastões:

Alerta, Cyalume é tóxico e além disto como comentei acima, há vidro nos bastões, portanto não façam isto em casa!

Namastê!


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