Lei de Stigler, ressaca de pan-galactic gargle blaster, a vida, o universo e tudo mais

18 01 2010

Epónymos era a figura que atribuía o nome a uma cidade na grécia clássica.  Eponímia é o nome que dela deriva.  Este conceito generalizou-se ao batismo de  técnicas, objetos, atributos, invenções seja por vias diretas ou indiretas, sendo considerada a forma suprema de reconhecimento da atividade de um pesquisador.

Quando eu era adolescente e morava lá em Santa Fé do Sul (proporcionalmente 105.18 Km mais distante de São Paulo e 3.7840092199092412 vezes menor que Barbarcena)  numa época em  que eu realizava um curso técnico em eletrônica,  com grande  freqüência eu conversava com o (bom amigo) Batata sobre física, eletricidade, válvulas raras, RF, a vida, o universo e tudo mais; num destes bate-papo logo após uma desopilação hepática  ele me comentou que quem deveria ser creditado pelo invento do rádio deveria ter sido o Padre Landell, um gaúcho que foi  padre católico e um notável inventor e não Marconi ; físico italiano que plagiando estudos apresentandos pelo Nikola Tesla em 1899 apresentou ao mundo que Pe.Landell já havia apresentado em 1893 para um pequeno público no bairro de Santana em São Paulo e depois em Campinas. Anos depois, descobri que as referências históricas disponíveis sobre elas não são satisfatórias para fins documentais; o que mostrou mais uma vez que não basta fazer, documentar é tão fundamental quanto a realização. Também foi o Batata que me revelou que o verdadeiro inventor do telefone teria sido Elisha Gray e não Alexander Graham Bell, quando eu solicitei suas “fontes” ele sacou de seu arquivo duas revistas  Saber Eletrônica que relatavam estes fatos.  Quando terminei de ler os artigos comentei: “Isto sim é pilantragem” e o Batata soltou uma que (na época)  eu  não entendi:

“Isto sim é a apoteose da irresponsabilidade consciente”  e tomei nota desta frase  na hora,  pois achei um “insight” muito inspirado…

Fiquei bastante curioso sobre estes fatos, infelizmente naquela época minhas fontes de pesquisas mais confiáveis (enciclopédias que eu devorava) diziam que os inventores da primeira aeronave havia sido os  irmãos Orville e Wilbur Wright.  Estas informações não mudaram minha vida, mas me tornaram um assíduo leitor na revista Saber Eletrônica por alguns anos como também me  estimularam a pesquisar (eventualmente)  sobre a história das invenções e das ciências.

Nestas primeiras pesquisas,  percebi que muitas invenções passaram por disputas de paternidade, mas nem sempre a disputa tinha motivações financeira, como por exemplo foi o caso de Bob Kearn retratado no filme Flash of Genius. Um caso mais popular  foi o exemplo da lâmpada que teve como primeiro inventor Joseph Swan mas  Thomas Edison levou os créditos, porém foi quem melhor explorou a invenção, tendo inventado o sistema elétrico com rede de distribuição de energia, geradores de energia e todo um universo que viabilizou a comercialização da eletricidade,  conseguindo explorar melhor a invenção. Caso similar ao  telefone visto que Bell explorou muito bem “sua” invenção e as redes telefônicas. Porém, no caso dele vamos dizer que se aplica a máxima do batata visto que Bell se inspirou no trabalho de Johann Philipp Reis, que  descobriu o trabalho de Stephen Gray (que em 1729 teorizou um telefone funcional) comprou (a preço de banana) protótipos de Antonio Meucci, ouviu boatos do aparelho de Christian Ørsted e quando ficou sabendo que   Elisha Gray (que era alguém com quem ele sabia que devia-se preocupar) iria registrar a patente de um telefone funcional, Bell subornou um funcionário do escritório de patentes e “conseguiu” registrar a patente do telefone primeiro, mas em 2002 a suprema corte americana reconheceu o trabalho de Antonio Meucci por ter sido o verdadeiro inventor do telefone;  decisão  justa mas tardia, afinal Meucci faleceu no século 19. No caso do rádio, entre aqueles que se proclamaram pais da invenção havia Nikola Tesla, Alexander PopovReginald Fessenden, Pe.Landell de Moura;  em 1943 a Suprema Corte dos Estados Unidos concedeu a Tesla a Patente 763,772 creditando a ele a invenção do rádio, talvez porque era o único que ainda havia algum representante ativo nesta luta, pois analisando historicamente o Pe.Landell Moura foi quem conseguiu primeiro. Felizmente hoje Landell é mais conhecido no Brasil, sendo patrono dos radiamadores brasileiros sendo conhecido como um dos pioneiros na invenção da TV, ele foi o inventor do telefone sem fio,  da comunicação via portadora ótica e entre outros campos ele é conhecido mundialmente por seu pioneirismo na bioeletrografia porém quanto ao rádio…

Numa destas pesquisas encontrei a palavra  eponímia (acho que)  pela primeira vez.  Um exemplo de eponímia é a  Salmonella, que tem origem do sobrenome do  Dr.Daniel Elmer Salmon, mas que na realidade ela foi descoberta por  Theobald Smith. Ué, como assim? De forma simplista, olha a máxima do batata aí novamente.

Num acaso, em 1992  li uma nota que Joel Cohen havia escrito um artigo no qual ele revelava que a “lei da eponímia de Stigler” foi muitas vezes formulada antes de Stigler a ter sequer nomeado. Mas o que era esta tal lei? Infelizmente era 1992,  não consegui encontrar nada nas bibliotecas que eu tinha acesso e eu estava procurando nos lugares errados.

Poucos anos depois, ao acaso, descobri que a chamada Lei – da  mesonímia ou eponímia – de Stigler afirmava que “no scientific discovery is named after its original discoverer” (nenhuma descoberta científica é designada com o nome do seu descobridor original)   bem, neste momento comecei a pensar, nenhuma?  Stigler chegou a esta conclusão observando várias descobertas, na área de economia e ciências, sendo-se que este trabalho proporcionou a ele o Nobel de Economia em 1982. Porém, se Cohen estava correto, até a lei de Stigler era vítima dela própria; ao menos ela era coerente. E ali senti que eu estava començando a aprender os nomes dos bois.

E eu ainda tinha aquela dúvida: todas? Obviamente que não podia ser todas, mas o quanto ela se aplicava? Qual ciência era mais suscetível? Porque esta tipo de situação era tolerada? Não há uma única resposta, cada caso é um história.

Alguns anos depois, felizmente já com a internet, resolvi pesquisar a origem de algo que a muito tempo eu tinha curiosidade e o que descobri foi interessante:

Em 1949, John Paul Stapp,  um  Ph.D, médico e coronel da  USAF (nascido na Bahia em 1910)  pioneiro nos estudos dos efeitos das forças de aceleração e desaceleração no organismo humano, que havia sido selecionado dois anos antes como “cobaia” de testes para medir a resistência humana a grandes acelerações,  consegui bateu o recorde mundial de aceleração mas não pôde  festejar o feito. Isto porquê os acelerômetros do trenó-foguete simplesmente não funcionaram. P. da vida, Stapp  solicitou ao engenheiro responsável pelas medições –  o então capitão Edward Murphy Jr. –  uma análise para identificar a falha. Logo eles descobriram que  um técnico ligara os circuitos do veículo ao contrário. No relatório de análise do problema,  Murphy anotou: “Se há mais de uma forma de fazer um trabalho e uma dessas formas redundará em desastre, então alguém fará o trabalho dessa forma”.

Dr. Stapp popularizou a expressão ao comentar em uma entrevista a jornalistas, o diagnóstico de Murphy, atribuindo ao fato de que ninguém saiu ferido dos testes por levarem em conta a Lei de Murphy e explicou as variáveis que integravam a assertiva, ante ao risco de erro e consequente catástrofe.

Enfim, quem a popularizou  foi Stapp e o seu autor (mesmo que atormentado por isto) sempre recebeu os méritos. Assim quando tive contato com as origens da folclórica e emblemática a Lei de Murphy minha primeira observação  foi que a Lei de Stigler não se aplica a ela. Imagino que esta seja uma daquelas citações desgastadas que ninguém mais aguenta,  mas como já dizia Nelson Rodrigues “toda unaminidade é burra”. Mas o que mostrou-se mais evidente é que a Lei de Murphy é mais poderosa que a Lei de Stigler! rs

Outro dia, já em 2010, lendo o post Newton e os Universos Paralelos vi uma referência ao clássico embate Newton vs Hooke, que sempre me faz lembrar do embate Newton vs  Leibniz . Muitas vezes a fama indevida ou a prova da Lei de Stigler ocorre de forma involuntária, no caso do Cálculo, não há eponímia, mas houve literalmente “a apoteose da irresponsabilidade consciente”, enfim, houve a pilantragem de Newton. Com o tempo descobri que o Batata não havia sido original, que a frase que me deslumbrou era do Carlos Imperial e ele omitiu, mas comparado ao que Newton fez isto não foi nada!

Apenas para contextualizar:

Isaac Newton fez descobertas elementares em gravitação, óptica, mecânica, dinâmica celeste e matemática!  Era um cientista. Já Leibniz, pai do termo função, era um filósofo e se interessava  por lingüística, história, direito, diplomacia, política, economia, teologia,  biologia, geologia,  matemática, filosofia e metafísica, sendo considerado  como o último gênio universal e inclusive um virtuoso atleta.

Leibniz publicou o seu trabalho sobre Cálculo antes de Newton.  Quando Newton teve acesso, ele ficou bastante irritado e temendo críticas, principalmente advindas de Robert Hooke, com quem não tinha muita afinidade desde quando ele publicou seu trabalho sobre ótica e que na ocasião era o presidente da Royal Society, Newton preferiu adotar uma estratégia vitriólica para “defender” seus interesses.

Quando  Hooke faleceu, Newton tornou-se uma espécie de presidente vitalício da Royal Society, da qual Leibniz também era membro. Desta forma, ainda inconformado por ter perdido o bonde do Cálculo, com um aliado escocês, John Kell,  começou a provocar Leibniz como plagiador.  Muito irritado com esta história, ele enviou ofícios violentos à Royal Society para provar que ele, sim, inventara o Cálculo Diferencial e Integral (até hoje são usadas as notações de Leibniz – por exemplo, o famoso dy/dx). Diante daquela querela entre titãs e como sói acontecer, criou-se um comitê para investigar a questão. Esse comitê foi formado em quase sua totalidade por membros pró Newton. Em tempo recorde ficou pronto um relatório conferindo a Newton a prioridade da invenção. Mais tarde foi descoberto um rascunho desse relatório manuscrito por Newton! Na realidade, com o tempo descobriu-se que quase todos os artigos que foram escritos ” atacando” Leibniz foram apenas publicados em nomes de outros cientistas da época, mas foram escritos por Newton (tsc).  Newton recebeu o título de Sir, faleceu em 31 de março de 1727 e foi sepultado na Abadia de Westminster, em Londres, entre os reis do Império Britânico.  Apesar de suas mentiras e desvios de caráter, ele foi  evidentemente um gênio, preguiçoso e ardiloso, porém sagaz e extremamente inteligente.

Todavia, a filosofia de Leibniz contribuiu para o que hoje chamamos de física moderna. Ele trabalhou com lógica simbólica, aperfeiçoou uma primitiva máquina de calcular e foi precursor da aritmética binária, base dos atuais computadores. Leibniz morreu em Hanover no dia 14 de novembro de 1716.

A melhor síntese desta história que eu já encontrei, do qual me apropriei de parte do texto está no trabalho Newton vs Leibinniz de Adalberto Nascimento, porém esta história é contada em vários livros.

Comentando sobre alguns destes assuntos numa conversa de bar e posteriormente via twitter com o @AlanJumpi e o @Feutestoun, surgiu um insight de escrever este post (ou algo parecido) foi quando comentei da Lei de Stigler e logo alguém me comentou que a @cyberdecker havia escrito a pouco tempo o post breve panorama da estatística e lei de Stigler que li gostei muito, sinceramente recomendo.  Na sequência surgiu a idéia de debatermos tudo isto com mais algum tempero de nerdices num bar, numa divagação imaginei que o local ideal seria o bar & restaurante no fim do universo, logo pensei:  como será uma ressaca  de Pan-Galactic Gargle Blaster?🙂

Saideira: por falar em aritmética binária, grandes gênios, inventores, absurdos e polêmicas sobre patentes, lembrei de uma clássica história onde em 1948 quando tentaram patentear as portas lógicas digitais, a U.S.Patents a negaram  pois Nicola Tesla já a detinha  desde a virada do século.  Esta foi uma contribuição indireta de Tesla extremamente valiosa, visto que  este  monopólio certamente iria gerar um absurdo atraso tecnológico.

E enquanto isto, cá onde feijão está queimando, nós ficamos em nossos skunkworks ralando, calculando, lustrando  e  escovando bits com sangue, suor e lágrimas (às vezes de ódio) e nossos feitos são atribuídos às  empresas quando não outros times. E  alguém sempre  tira nosso feitos de suas cartolas como coelhos mágicos e  levam a glória de nossos times de desenvolvimento.

Ps: Ainda pensando nestes sci-fi drinks,  como será uma ressaca de “Romulan Ale“?  Bom, esta divagação incidental e um pouco (ou muito mais) sobre curiosidades sobre Tesla,  Landell e história da ciência  ficam para outro(s) post(s) que após quebrar o jejum, nas próximas aplicarei as técnicas de jack.

Namastê!


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7 responses

18 01 2010
Giseli

Excelente post com uma mistura e tanto de assuntos! =)
A disputa entre Newton e Leibniz é clássica…. tem um livro a respeito, o “A guerra do cálculo”, de Jason Socrates Bardi, muito bom, aliás!
Realmente é uma pena o Pe. Landell não ser sido reconhecido… mas acho que hoje mais gente sabe disso que antes, se bem que não sei se vai mudar os créditos no futuro. Who knows?

18 01 2010
techberto

Well, really… who knows?🙂

Mas na realidade, todos os casos de revisão de patentes ocorre por solicitação da parte interessada e no caso do Pe.Landell, não há ninguém trabalhando por isto. Nos últimos 15 anos de sua vida ele estava dedicando-se apenas a filosofia, teologia, sacerdócio e ao trabalho missionário…

[]s++;

20 01 2010
techberto

Desculpe a demora, mas a idéia (tornou-se) o de lançar várias assuntos com ligações tênues num único post, com o tempo irei escrever outros posts fazendo referências a este.

A primeira vez que tive contato com a disputa entre Newton & Leibniz foi com o livro “The History of the Calculus and Its Conceptual Development” do
Carl Boyer a uns 16 anos atrás, vi uma abordagem interessante num livro de História da Matemática (não lembro o autor) e outra bem bacana no Advento do Algoritmo do David Berlinski que tive contato em 2002, há citações sobre esta história em vários outros livros, artigos e o assunto até surge em conversa de boteco entre os amigos!🙂 Este livro do Jason Socrates é mais recente, mais abrangente porém eu não o li, apenas dei uma olhada nele (na Livraria Cultura do Conjunto Nacional ) e ao que parece não há grandes novidades, mas é realmente uma boa dica para leitura! Obrigado.

Sobre o Padre Landell, estou querendo confirmar alguns detalhes que lembro ter lido numa das biografias (ou artigo agora não estou lembrado) e após estou interessado em escrever um post apenas sobre ele.

Valeu!

18 01 2010
Alan Jumpi

Excelente post!!! E quanto ao debate em algum boteco, basta marcar!!! Realmente, me inspirou ate a voltar a criar novos posts…😀

18 01 2010
yo

Então a Lei de Murphy se manifestou na Lei de Stigler.

Murphy não falha.

18 01 2010
techberto

Exato!

Por mais que Murphy tenha ficado desgostoso e deprimido com sua lei, ela impera em todos os lugares, ela só falha quando você espera por ela; o que não é um desvio mas sim confirmação.

[]s

18 01 2010
techberto

A partir da década de 40 o Pe.Landell passou a ser reconhecido, porém em 1905, quandi ele retornou ao Brasil após uma temporada que ele passou nos Estados Unidos, ele solicitou ao presidente da República dois navios da esquadra de guerra para demonstrar seus inventos e ele foi considerado louco! Quando Marconi fez pedido similar na Itália, ele teve todo apoio do governo e a esquadra inteira a disposição. Já imaginou se na época certa ao invés de ter sido acusado de bruxo, herege e feiticeiro ele tivesse sido tratado como gênio?

Infelizmente, já vivíamos na época da república (negra) e quem reconhecia o brilhantismo e a genialidade do Pe.Landell não estava mais no poder: D.Pedro II.

[]s++;

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